Opinião

Artigo de Opinião: Raquel Lyra e o preço pago pela “contaminação”

Há uma pergunta que, hoje, atravessa rodas de conversa, redações, gabinetes e redes sociais com a mesma força: a Polícia Civil está a serviço da sociedade ou virou instrumento de disputa política? A depender de quem responde, a instituição aparece como guardiã da segurança pública ou como peça de um tabuleiro que já não respeita limites.

Não é uma dúvida pequena. Ela não nasce do nada. Ela é fruto de um tempo em que a discrição, marca histórica de muitos órgãos de segurança, foi substituída por uma espécie de “era da vitrine”, onde operações, suspeitas e narrativas correm mais rápido do que os fatos. E, quando a investigação passa a disputar espaço com a manchete, a corporação paga um preço alto: a confiança pública se fragiliza, mesmo quando há trabalho sério sendo feito. A polícia investiga, mas quem controla o espetáculo?


A Polícia Civil não é, e não pode ser, uma instituição de “aplausos”. Sua função não é agradar, nem atender conveniências de ocasião. Ela deve servir ao interesse público, cumprir protocolos, respeitar garantias individuais e investigar com base em critérios técnicos.

Mas o que vemos, cada vez mais, é o surgimento de um fenômeno perigoso: a contaminação do trabalho policial por ambientes midiáticos e partidários. E quando isso acontece, o resultado é previsível: surgem suspeitas de seletividade, de vazamentos, de perseguições, de “investigações com endereço”, de uso político do aparato estatal. Mesmo que não se prove nada, o estrago já está feito. Porque segurança pública não é apenas prender ou investigar. Segurança pública também é credibilidade institucional. E credibilidade não se reconstrói com discursos, se reconstrói com postura.

No episódio citado, a Secretaria de Defesa Social (SDS), afirma que a Polícia Civil recebeu uma denúncia anônima grave, envolvendo a suposta utilização de um veículo por servidor do município do Recife, para possível recebimento de propina. E aqui há um ponto central: a própria SDS reconhece que denúncias anônimas, por jurisprudência consolidada do STF, não autorizam abertura imediata de inquérito. Elas servem como fonte inicial, um “alerta”, e exigem diligências preliminares para verificar se há elementos mínimos que sustentem qualquer medida formal. Ou seja: investigar preliminarmente não é, por si só, ilegal. É o procedimento esperado quando se tenta separar “fato” de “boato”.

A nota ainda afirma que não houve violação de privacidade nem exposição, e que ao final não foi instaurado inquérito, porque não se constatou ilícito. Tecnicamente, a nota tenta fechar o assunto com uma mensagem clara: houve apuração preliminar, seguiu-se o rito, e nada foi encontrado. Mas, politicamente, a história raramente termina onde a técnica manda.
O problema não é investigar. É o “porquê” e o “para quê” parecerem suspeitos. A grande crise não está apenas no procedimento, está no contexto.

E quando o Estado não consegue responder com transparência suficiente, ou quando o ambiente político já está inflamado, a sociedade passa a acreditar que tudo é jogo de interesse. A partir daí, instala-se o pior cenário possível: ninguém acredita em ninguém. E quando a população não acredita na polícia, a polícia vira alvo. E quando a polícia vira alvo, perde força para agir. E quem ganha com isso? O crime, a corrupção e o caos.

Quando uma investigação nasce, circula e morre no mesmo ambiente onde se alimentam disputas de poder, o cidadão não pergunta apenas “foi legal?”. Ele pergunta: por que essa denúncia surgiu agora? por que vazou (se vazou)? quem ganha com isso? quem perde?
foi diligência ou recado? foi técnica ou provocação?

O texto-base aponta um dilema ainda mais delicado: o desgaste interno e político na gestão da governadora Raquel Lyra, sugerindo que a presença de quadros historicamente ligados a velhas práticas e alianças questionáveis teria sido um erro estratégico. É um argumento duro, mas comum na política real: governos se fragilizam quando abrem espaço para grupos que não compartilham projeto, apenas conveniência. E conveniência, no poder, costuma ser uma faca com duas lâminas.

A pergunta que fica é: há, dentro do governo e das estruturas do Estado, quem trabalhe mais para manter influência do que para servir à gestão eleita? Se a resposta for “sim”, a governadora não enfrenta apenas oposição externa: enfrenta sabotagem interna, que é sempre mais silenciosa e mais eficiente. E nesse tipo de ambiente, qualquer faísca vira incêndio. Qualquer ruído vira crise. Qualquer suspeita vira “circo”. E a instituição policial, em vez de ser pilar de estabilidade, vira palco de desconfiança.

O texto também levanta hipóteses sobre agentes “insatisfeitos”, vazamentos e denúncias que poderiam ter sido usadas como armadilha ou como instrumento de exposição política.
São suspeitas graves, e por isso mesmo exigem cuidado. Mas não podem ser ignoradas, porque o Brasil já assistiu muitas vezes a investigações virarem instrumento de guerra política, com vazamentos seletivos e narrativas prontas antes da prova.

Quando isso ocorre, a polícia perde o que tem de mais valioso: a aparência e a prática de imparcialidade. E imparcialidade não significa neutralidade moral. Significa que a lei vale para todos, e que a instituição não escolhe lado, escolhe o fato. A SDS diz que não houve crime constatado e, por isso, não houve inquérito. Do ponto de vista formal, isso deveria encerrar o episódio. Mas do ponto de vista social e político, ele deixa lições incômodas: Denúncias anônimas são perigosas quando viram arma.

Diligências preliminares precisam de rigor absoluto, porque qualquer excesso vira abuso.
A credibilidade da Polícia Civil depende tanto do que faz quanto de como faz. A política precisa sair do corredor das delegacias, e as delegacias precisam sair do palanque. O que a sociedade precisa exigir, sem cair no extremismo A sociedade não pode escolher entre dois extremos igualmente ruins: “A polícia está sempre certa.” “A polícia é sempre política.”

O caminho democrático é mais difícil e mais maduro: cobrar legalidade, transparência e correção, sem destruir a instituição nem transformá-la em escudo de interesses. Se houve diligência preliminar correta, que se prove a correção. Se houve abuso, que se puna o abuso.
Se houve vazamento, que se identifique o vazamento. Se houve uso político, que se corte o uso político. Porque, no fim, a Polícia Civil não pode ser uma corporação de facções, precisa ser uma corporação de Estado.

Conclusão: quando a polícia perde a confiança, o Estado perde o chão. O que está em jogo não é apenas um caso específico, nem apenas um governo. É algo maior: a confiança pública na ideia de justiça. Quando o cidadão acredita que investigações são feitas por técnica, ele aceita até resultados amargos. Quando acredita que são feitas por interesse, ele rejeita até resultados corretos.

E é por isso que a pergunta que abre este artigo divide opiniões: porque não se trata só de polícia, se trata de qual Estado estamos construindo.

A história dirá se tudo foi apenas procedimento padrão diante de uma denúncia anônima, como sustenta a SDS ou se foi mais um capítulo do adoecimento institucional que transforma o que deveria ser proteção em instrumento de disputa.
Mas uma coisa já é certa: quando a segurança pública vira espetáculo, a sociedade vira plateia e o crime vira protagonista.

Marcus Oliveira

Marcus Oliveira

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O Portal Correio de Notícias, liderado pelo jornalista Marcus Oliveira desde sua fundação em 2019, é referência em jornalismo ético e imparcial em Pernambuco. Com foco em política, cidades, entretenimento e opinião, o canal se consolida como uma fonte confiável, conectando e informando os pernambucanos com credibilidade e inovação.

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