Política

Opinião: “Matou a família e foi ao cinema”. Entenda!

Matou os direitos e foi à praça“Matou a Família e Foi ao Cinema”, clássico de Júlio Bressane lançado em 1969, é mais do que um filme do Cinema Marginal. É uma provocação. Uma narrativa incômoda sobre alienação, brutalidade e indiferença. O personagem comete um crime extremo e, como se nada tivesse acontecido, segue sua rotina, senta-se numa poltrona e vai assistir a um filme. A vida continua. O choque não é apenas o ato, mas a naturalização dele.A metáfora parece atual demais.

No Recife, o prefeito protagoniza um roteiro que, guardadas as proporções, dialoga com essa mesma lógica de desapego. Após tentar suprimir direitos adquiridos de um cidadão, direitos consolidados, amparados pela legalidade, o gestor simplesmente foi “brincar na praça”, sorridente, cercado de aliados políticos, como se nada estivesse acontecendo. Nenhuma explicação pública consistente. Nenhuma demonstração de empatia institucional. Apenas o gesto simbólico da indiferença.

O problema, contudo, não se encerra no comportamento do prefeito. Ele se agrava, e muito, quando os órgãos que deveriam fiscalizar, coibir e questionar irregularidades passam a agir de forma condescendente. Ou pior: quando pessoas vinculadas a esses órgãos, por laços políticos ou familiares, silenciam diante de atos que exigiriam rigor e distanciamento.

É nesse ponto que o caso ultrapassa o debate político e adentra uma zona sensível da moralidade administrativa.Lucas Vieira Silva foi nomeado e é filho da procuradora de contas Maria Nilda Silva, integrante do Ministério Público de Contas (MPC), órgão que atua junto ao Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE). A função do MPC é clara: fiscalizar a legalidade dos atos e gastos públicos de todas as gestões, inclusive da Prefeitura do Recife.

A pergunta que se impõe não é pessoal, mas institucional:há ou não conflito de interesses?Mesmo que não exista ilegalidade formal comprovada até aqui, o princípio da moralidade administrativa exige mais do que legalidade estrita. Exige aparência de imparcialidade, zelo institucional e afastamento de qualquer situação que coloque em dúvida a isenção dos órgãos de controle.

O silêncio, nesse contexto, fala alto.O Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco precisa se posicionar. Não por pressão política, mas por dever institucional. A sociedade precisa de respostas claras: houve análise técnica isenta? houve impedimento formal da agente envolvida em qualquer processo relacionado à gestão municipal? os critérios da nomeação respeitam os princípios constitucionais da impessoalidade e moralidade?

Quando gestores “matam direitos” e seguem sorrindo em eventos públicos, e quando os órgãos de controle assistem a tudo como meros espectadores, a democracia adoece. O problema deixa de ser um ato isolado e passa a ser o enredo completo: poder, conveniência e silêncio.

No Cinema Marginal, o choque era estético. Na vida real, o choque é institucional. E, diferente do filme, não podemos apenas assistir passivamente da plateia.

Marcus Oliveira

Marcus Oliveira

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